Quinta-feira, Janeiro 05, 2006

Ano novo

Já não sei bem o que é este espaço, nem se as letras que se vão escrevendo fazem algum sentido, se a harmonia das ideias interessa ou levanta questões, se o debate interno deverá trespassar as paredes do cérebro e sair para este fundo vermelho.
Os dias sucedem-se, o meu cabelo acompanha as minhas ondas sincopadas de vida, as minhas mãos vão sanando conflitos com os órgãos de chefia superior, a música sai-me dos dedos em dias de frio, e as metáforas de vidas ficcionadas e mortes ausentes entram-me por uns olhos bem calibrados que nada devem às mágicas cenouras.
Até já.

Terça-feira, Setembro 20, 2005

A geografia das eleições

Os limites, as marcações geográficas e as posses tutelares fazem de mim um cidadão de Odivelas. A separar o meu direito a ser lisboeta estão cerca de 100 metros, ou se quisermos, cerca de 10 segundos com o Obikwelu em aceleração máxima. Assim, a minha intervenção na Lisboa onde se processa a minha existência, onde estudei e onde mantenho todos os elos a que chamam viver, fica reduzida a dar palpites, a discussões calorosas com amigos, às impressões artísticas das campanhas e dos cartazes estrategicamente emoldurados e da visualização dos debates nas televisões. As questões importantes que me preocupam em Lisboa, que me podem alterar rotinas e tornar mais agradável a existência ficam muito acima das que me preocupam na zona geográfica onde durmo e nos 100 metros que percorro.
Dia 9 de Outubro votarei nas urnas de Odivelas, onde exijo boa qualidade de sono e uma rua impecável para os meus trajectos de fuga e regresso à terra que me viu morar, espreitando os destinos da terra que me viu nascer, não os do Campo Grande em particular, mas os da cidade de Lisboa.

Os candidatos apresentam aos eleitores as suas melhores ideias para os próximos 4 anos esperando que o brilho das suas propostas dê lustre à cidade

Domingo, Setembro 18, 2005

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Alto do parque, tarde solarenga de Sábado. Sob o mastro da maior bandeira portuguesa, hasteada há dias, os guardiões da "raça", do ser português, do tradicional, desta mistura lusitana que bebe de tantas e tão diversas origens culturais e religiosas que suponho que explicadas ficariam nas cabeças destes militantes tanto tempo quanto o brilho da graxa das suas botas. Noutros mastros esvoaçam bandeiras pretas que os aprumados moços vão agarrando, entre faixas e cartazes que invocam a pureza da família tradicional (só não percebo se condenam o divórcio, a violência doméstica, se são famílias do Estado Novo com um passado na mocidade). Mas o que os move é a protecção às crianças, esses futuros portugueses, essa estirpe que não poderá sofrer mutações e que terá de ser protegida dos homossexuais (curioso neste caso parecer mais contra os "homem-sexuais"). A argumentação centra-se no facto de considerarem a homossexualidade uma doença e de a ligarem aos actos de pedofilia (afirmam que 80% dos homossexuais são pedófilos mas quando confrontados com a origem dos dados ninguém consegue identificá-la, deve ser mais um número dogma e divino).
Mas que bom podermos dormir sabendo que as crianças estão a salvo nas mãos destes seres especiais, de uma raça superior, que incitam o ódio, promovem a violência para com as comunidades diferentes (pela côr de pele, de nacionalidade ou outras) e que instigam as populações a desprezarem as minorias e a seguir um sistema de ordem que só eles conseguem vislumbrar.

Quinta-feira, Setembro 15, 2005

2+2= ?

O relatório sobre Educação publicado pelo OCDE permite a análise do sistema de ensino português e do actual cenário de formação da mão-de-obra de um país que ainda sustenta o paradigma do desenvolvimento desprovido da inteligência e do conhecimento científico. Para além disso, quebra o mito de Portugal ser um dos países que mais investe na educação e revela o nível médio de escolaridade, surpreendente para quem anda distraído.

Fotografia da OCDE ao ensino português e a introdução do inglês nas faculdades

Nação Unida

Neste período de reflexão e reforma das Nações Unidas nunca é demais relembrar o que pensa o embaixador dos Estados Unidos sobre o único espaço de reunião global.



"As Nações Unidas não existem. O que existe é uma comunidade internacional que pode ocasionalmente ser liderada pela única potência do mundo, que são os Estados Unidos, apenas quando isso serve os nossos interesses e quando conseguimos convencer os outros a seguirem o nosso caminho."

Quarta-feira, Setembro 14, 2005

Parábola do cabelo

Descobri, hoje, que passei vinte e seis anos a contrariar as ondas do meu cabelo. Enfrentei as vagas do norte, alisei os tortuosos declives do meu relevo capilar e afinal tinha o risco, o meridiano que separa a esquerda e a direita do meu tufo, do lado contrário.
Mantive assim o cabelo tal como persisti constantemente em situações de proveitos irrisórios e de improváveis bonanças. Insisti no erro, acomodei-me ao mediano e ao improcedente e estabeleci metas inconciliáveis com o amorfismo reinante.
Espero que a mudança de corrente do meu couro cabeludo seja o pronúncio da mudança. Pelo menos o exemplo vem de cima.

Domingo, Setembro 04, 2005

Relações espúrias?

Mais um fogo, mais vítimas, mais uma vez Paris e os prédios da segurança social. Lembrei-me de um filme (De tanto bater o meu coração parou) que por estes dias está nas salas portuguesas e dos ilustres personagens do ramo imobiliário que recorrem às mais danosas estratégias contra os moradores que atrapalham o lucro fácil da actividade.

Katrina - dois rios paralelos

A tragédia, o limite humano, os fios da navalha da natureza dissipam as ilusões da união racial, da solidária convivência e quebram os diques da falsa justiça social. Assim como o denso azeite se não mistura com a água também os afro-americanos ficaram separados num extenso lençol de água onde, mesmo sendo a maioria e dando motricidade a uma cidade de tradições ímpares, a opulência e o factor monetário determinaram destinos e transformaram Nova Orleães na montra da silenciosa exclusão estado-unidense.


Quinta-feira, Agosto 25, 2005

Foguetes

O fogo atrasa o armistício e demora a sair de trincheiras. Os soldados da paz dividem-se pelas florestas, nas frentes de fogo que se alargam.
Na aldeia há festa. A noite vai chegando e com ela vem a gente das aldeias vizinhas de crianças ao colo, em motorizadas familiares de cinco passageiros, cambaleando ao chocalho do tinto no estomâgo vazio, dentro de automóveis de roncos graves e estofos equipados com colete de origem.
No alto do monte o responsável pirotécnico aguarda pacientemente pelo final do espectáculo dos músicos que fazem as delícias da plateia efusiva. Toy, Emanuel, Zé Cabra, Humanos, Sandro G., estão presentes num repertório que provoca tombos no salão de baile improvisado e que aumenta a sede a muitos que vão secando os barris de cerveja dos feirantes.
A febra sai, o frango vende, a entremeada rola e a sardinha espeta as últimas finas espinhas nas gengivas dos foliões menos atentos.
Mas o homem no monte espera pelo sinal de fim da música. Com os seus três dedos da mão direita segura um cigarro, uma mini e ainda coça a orelha enquanto a outra tem já pronto o rastilho na cana para fazer subir o primeiro foguete.
Lá vai a primeira bomba que dará início ao espectáculo de luz e som. Primeiro a luz, depois o som, levantam os olhos da populaça que está no adro ou que aproveitou a pausa das canções para cravar os dentes numa bifana ou diluir um algodão doce.
Depois do aviso chega a primeira rajada de infantaria com as luzes e os ruídos de bombas que vão à boleia de canas que regressam descontroladas ateando chamas nos campos secos da aldeia. As pessoas de olhos postos no céu fixam as cores e estremecem com as cargas de pólvora que rebentam experimentando sensações sísmicas mesmo que nunca tenham ouvido falar de Richter ou Mercalli.
De madrugada o retorno às casas faz-se em lágrimas. As mangueiras que se reúnem no adro são poucas para molhar o lume que consome as quintas dos habitantes que trocaram a casa pela festa. O prazer pelas canas de fogo transforma-se agora em lamentos pela falta de bombeiros, pela escassez de meios, pela ausência de medidas do Estado. Certo é que no dia seguinte, a acompanhar a procissão, serão oferecidos à Santa mais 150 foguetes, não vá ela esquecer estes fiéis numa altura em que os incêndios proliferam.