O fogo atrasa o armistício e demora a sair de trincheiras. Os soldados da paz dividem-se pelas florestas, nas frentes de fogo que se alargam.
Na aldeia há festa. A noite vai chegando e com ela vem a gente das aldeias vizinhas de crianças ao colo, em motorizadas familiares de cinco passageiros, cambaleando ao chocalho do tinto no estomâgo vazio, dentro de automóveis de roncos graves e estofos equipados com colete de origem.
No alto do monte o responsável pirotécnico aguarda pacientemente pelo final do espectáculo dos músicos que fazem as delícias da plateia efusiva. Toy, Emanuel, Zé Cabra, Humanos, Sandro G., estão presentes num repertório que provoca tombos no salão de baile improvisado e que aumenta a sede a muitos que vão secando os barris de cerveja dos feirantes.
A febra sai, o frango vende, a entremeada rola e a sardinha espeta as últimas finas espinhas nas gengivas dos foliões menos atentos.
Mas o homem no monte espera pelo sinal de fim da música. Com os seus três dedos da mão direita segura um cigarro, uma mini e ainda coça a orelha enquanto a outra tem já pronto o rastilho na cana para fazer subir o primeiro foguete.
Lá vai a primeira bomba que dará início ao espectáculo de luz e som. Primeiro a luz, depois o som, levantam os olhos da populaça que está no adro ou que aproveitou a pausa das canções para cravar os dentes numa bifana ou diluir um algodão doce.
Depois do aviso chega a primeira rajada de infantaria com as luzes e os ruídos de bombas que vão à boleia de canas que regressam descontroladas ateando chamas nos campos secos da aldeia. As pessoas de olhos postos no céu fixam as cores e estremecem com as cargas de pólvora que rebentam experimentando sensações sísmicas mesmo que nunca tenham ouvido falar de Richter ou Mercalli.
De madrugada o retorno às casas faz-se em lágrimas. As mangueiras que se reúnem no adro são poucas para molhar o lume que consome as quintas dos habitantes que trocaram a casa pela festa. O prazer pelas canas de fogo transforma-se agora em lamentos pela falta de bombeiros, pela escassez de meios, pela ausência de medidas do Estado. Certo é que no dia seguinte, a acompanhar a procissão, serão oferecidos à Santa mais 150 foguetes, não vá ela esquecer estes fiéis numa altura em que os incêndios proliferam.